O Hospital São Julião completa no dia 5 de agosto, 80 anos de uma história marcada pela solidariedade, amor ao próximo e respeito à vida. Inaugurado em 1941, o local fazia parte dos antigos asilos-colônias criados por Getúlio Vargas para isolar os pacientes diagnosticados com hanseníase, uma doença contagiosa e de evolução crônica, cujo tratamento ainda era desconhecido.
Na época, prevalecia o preconceito e o estigma com os portadores da doença, vulgarmente conhecida como ‘lepra’. Por conta disso, os pacientes eram afastados completamente da sociedade e passavam a viver nestas colônias. Tais espaços eram organizados como uma cidade, com escolas, praças, dormitórios, refeitórios e até cemitérios.
Com o passar dos anos e a falta de interesse público em investir no local, o asilo-colônia São Julião foi relegado ao abandono. Até que a partir de 1969, voluntários italianos da Operação Mato Grosso passaram a trabalhar no antigo leprosário e participaram da recuperação física e social do São Julião. Foi formada então a Associação de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos (AARH), que assumiu a diretoria executiva do local.
“Começaram a vir voluntários de toda a espécie: médicos, professores, estudantes…. Nesta época, havia uma espécie de convênio com a Universidade de Turin, na Itália, de onde vinham esses voluntários. Essas pessoas auxiliaram não só na reestruturação do hospital, na verdade ele foi se transformando em um hospital, mas na construção mesmo, no trabalho pesado”, comenta Cláudio Machado, atual diretor-geral do São Julião.
À frente da associação filantrópica que mantinha as atividades do hospital, estava a Irmã Silvia Vecellio. Nascida na Itália, ela veio para Campo Grande para dar aulas no Colégio Auxiliadora. Na época, ela acabou conhecendo alguns filhos dos internos do São Julião, que pediam informações sobre seus familiares, uma vez que por conta da lei de isolamento compulsório, não mais tinham contato.
Ao visitar os pacientes para levar informações sobre seus filhos e vice-versa, ela se comoveu ao ver a triste situação dos doentes, ainda vivendo em um prédio deteriorado e abandonado pelo poder público. Tomou a decisão então de tentar resgatar o hospital e ajudar aqueles que mais necessitavam. Aos 89 anos, Irmã Silvia continua mantendo a AARH até hoje.
Bruno Maddalena foi um dos voluntários italianos que vieram trabalhar no São Julião através da Operação Mato Grosso, em 1987. Ainda hoje, continua morando e atuando no Hospital, no setor de Gestão de Resíduos. “Eu saí de um país que estava passando por uma fase muito boa economicamente para ter uma experiência que fosse marcante para mim como ser humano. Lembro que uma frase que ouvia muito dos pacientes era ‘tudo bem, graças a Deus, mesmo não estando bem fisicamente. Então me marcou muito”.
Ex-paciente do hospital para tratamento de sua hanseníase, Rita de Almeida também começou a trabalhar como voluntária no São Julião em 92, onde permanece até hoje. Para ela, é uma forma de retribuir por todo o acolhimento que recebeu na época. “O São Julião para mim é um porto seguro. Tanto é que hoje eu poderia sair daqui, mas eu não quero. Vou passar férias com a minha família, mas eu volto para o porto seguro”.
Cenário Atual
Com o passar dos anos e a medida em que, com o avanço da ciência e da qualidade de vida da população, a hanseníase passou a ser melhor controlada, o hospital São Julião começou a realizar atendimento em outras áreas da saúde. Atualmente é referência não só do tratamento à hanseníase, mas também da tuberculose e na área oftalmológica.
Com uma moderna estrutura física, equipamentos de última geração e equipe médica altamente qualificada, o Hospital conta hoje com unidade ambulatorial, cirúrgica, laboratorial, de reabilitação, de internação e unidade científica. Além dos setores de assistência à saúde, possui uma Capela para cultos religiosos e quadras para a prática desportiva.
O Hospital também tem o reconhecimento do Ministério da Saúde pela assistência a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), recebendo prêmio de qualidade hospitalar na região centro-oeste. “Uma das marcas do São Julião é o bom atendimento ao paciente”, resume o diretor-geral Claudio Machado.
Em uma área total de 243 hectares, o hospital é envolvido por extensa área verde, com amplos jardins e matas de vegetação nativa, onde habitam 135 espécies de aves, além de outros animais. Aliás, a preservação ambiental é assunto sério no Hospital, uma vez que mais de 60% de seus resíduos sólidos, que mensalmente chegam a quase 20 toneladas, são reaproveitados seja por meio da reciclagem ou da compostagem.
“Um hospital com essa configuração, você percebe o quanto a natureza faz bem, sobretudo num processo de recuperação da saúde. Imagina ficar internado aqui por 20 dias, ou ficar internado 20 dias em outro hospital”, diz Bruno Maddalena, encarregado do setor de Gestão de Resíduos do hospital.
Parcerias
Ao longo de toda a sua história, empresas de diferentes setores ajudaram o Hospital São Julião, por meio de doações em dinheiro ou em equipamentos e serviços, a manter sua missão e ações nas áreas de assistência médica, pesquisa e transformação social.
Entre essas empresas, está a Cold Line Brasil, que há mais de 15 anos disponibiliza gratuitamente todas as câmaras frias utilizados pela entidade. “Em várias ocasiões a Cold Line se fez presente e resolveu problemas sérios que nós tínhamos aqui, e tudo isso gratuitamente e com um sorriso estampado no rosto”, relembra Bruno Maddalena.
O diretor-geral do Hospital, Claudio Machado, faz o apelo para que mais empresas e pessoas apoiem a causa do São Julião com doações, para que o mesmo continue cumprindo a sua função social. “Cerca de 99% da receita do hospital é proveniente do serviço prestado ao SUS, e nós sabemos que as tabelas não se reajustam há mais de 20 anos. Por isso, é muito importante ter essas parcerias, esses apoios, para que o hospital continue prestando esse serviço de excelência”, conclui.